Não morra em vida.
Perdido entre as perdidas vagas do mar da noite,
entre as falsas perspectivas de errantes amantes
e entre aquelas difíceis escolhas,
que já deveriam ter sido feitas antes.
Perdido entre perdidos quereres, desejos e abismos.
Impulsionado por sonhos,
aprisionado pela realidade.
Assim caminho eu, assim caminha a humanidade.
Toda a beleza da canção se perdeu,
Todo som das músicas, emudeceu;
Toda cor das palhetas, descoloriu;
Todo amor que se tinha, também sumiu.
Todo sonho que se sonhava, acordou.
Toda voz que gritava, se calou.
Toda possibilidade de mudança, acabou.
Pessoas se converteram em frios números,
frios números passaram a reger os atos de frias pessoas.
O dinheiro tornou-se imperador....
governador de um mundo condenado,
onde não há, nem ao menos, o amor.
Vidas ceifadas pela ganância,
natureza destruída pela capitalização da vida
e justificada através da (verdadeira ou falsa) ignorância,
Guerras travadas para movimentar o mercado,
exploração e degradação do humano:
Grandioso circo dionisicamente controlado.
Mídia no comando de mentes,
à serviço daqueles velhos e podres agentes.
Todas as peças do jogo, encaixadas.
Tudo parece definido,
a morte, pelo doutor, já fora atestada.
Mas é justamente, dos solos mais áridos e inférteis,
encobertos por gélidas atmosferas e diversos terrores,
que nascem as mais inesperadas e belas flores.
Como disse Drummond,
"Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego."
Pois aqui, com ou sem náusea, eu também garanto
que uma flor nasceu.
E com ela, talvez tenha renascido,
a esperança que havíamos perdido,
as cores que haviam descolorido,
os sonhos que abandonamos,
o amor que tinha falecido.
Mesmo que os projetos pareçam utópicos,
ainda que os planos não pareçam concretos...
Deixar de tentar é deixar de, verdadeiramente, viver.
É abrir mão do sentido que nos fundamenta o ser
e, então, material ou simbolicamente, morrer.
Por isso, viva. E viva de verdade.
Busque o sol, mesmo durante a infindável tempestade.
Busque a alegria, mesmo que já não haja perspectiva de felicidade.
Busque a justiça social, mesmo que já não se veja caminhos para a igualdade.
Busque a nossa utopia, por pior que seja a nossa realidade.